Publicações literárias: a dor e a delícia

Editores ressaltam obstinação, teimosia, paixões e dilemas para manter o jornalismo literário em efervescência no país

Ainda que uma mesa tivesse sido pensada especialmente para discutir a questão da diversidade, a chamada revisão do cânone tomou conta do debate inaugural do seminário “Livros em Revista” (veja programação completa AQUI) na noite de quarta-feira no Sesc Bom Retiro.

Uma conversa entusiasmada colocou lado a lado editores de cinco das principais publicações literárias do país: Bárbara Bulhosa (Granta Portugal-Brasil), Daysi Bregantini (Revista Cult), Rogério Pereira (Jornal Rascunho), Schneider Carpeggiani (Suplemento Pernambuco) e Mirna Queiroz (Revista Pessoa).

“Por que que eu não vou, como mediadora cultural, querer descobrir escritoras mulheres, ou escritores indígenas ou negros? Eles existem, estão produzindo, por que que não vou querer publicá-los na minha revista?”, indagou Mirna. A questão de como, de que formas e com que critérios, dar conta de vozes até então marginalizadas pela crítica literária atravessou a fala dos diferentes participantes.

Depois da abertura de Danilo Santos de Miranda, diretor do Sesc-SP que lembrou do legado de Antonio Candido, e do discurso de boas-vindas dos editores da Quatro Cinco Um, organizadora do evento, cada um dos participantes falou sobre modelos de financiamento, critérios de pauta e dificuldades enfrentadas:

“São publicações diferentes, mas temos questões muito parecidas de como lidar com o presente”, sintetizou Carpeggiani. Sustentado pelo Estado de Pernambuco, o Suplemento editado por ele conta com estabilidade financeira, mas está sempre sob ameaça de que uma troca de governo venha dissolver o projeto. O editor ressaltou ainda a preocupação da publicação em dar espaço a vozes dissonantes, mesmo sob o risco de se ver criticado tanto pela direita quanto pela esquerda e o “aprendizado diário” que tem com as críticas que recebe via redes sociais.

Mirna Queiroz lembrou como a Revista Pessoa nasceu inicialmente em formato impresso, fruto do que chamou de um “impulso afetivo” seu , e como aos poucos tornou-se plataforma digital, com um modelo baseado em assinaturas e no micro-pagamento por artigo. “Ainda que os espaços tradicionais possam estar diminuindo, mas os espaços digitais são cada vez mais amplos”, disse complementando sua obstinação em “resgatar autores que ficaram perdidos no tempo e ao mesmo tempo dar espaço para vozes que estão emergindo”.

A partir da história de sua família de origem humilde, Rogério resgatou a trajetória do Rascunho e sua obstinação em fazer um jornal de literatura que possa mudar a vida de meninos e meninas no Brasil como o extinto Nicolau mudou sua própria. “Minha mãe era analfabeta [...] morreu sem nunca ter ido ao cinema”, lembrou, ressaltando que vive de assinaturas e anúncios, mas também dos mais de 50 colaboradores voluntários que possui espalhados pelo Brasil e que boa parte da tiragem é distribuída gratuitamente em bibliotecas públicas.

Em contraposição, Daysi Bregantini destacou a importância de tratar a revista como negócio, registrando funcionários, pagando colaboradores e garantido que as contas fechem ao final do mês. “Eu não gostaria de um dia precisar pedir ajuda. O produto é bom, conteúdo relevante. A gente vende muito em banca”, disse, enfatizando o que chamou de “lado não-romântico” e lembrando que ao comprar o título à beira da falência optou por transformar a Cult de uma revista exclusiva de literatura numa publicação de cultura em sentido amplo.

Barbara encerrou a sequência de falas lembrando da fundação de sua editora Tinta da China e do intercâmbio permanente de autores que promove entre Brasil, Portugal e os outros países lusófonos, “[Nós, portugueses] sempre achamos que nós é que sabíamos falar português, e por discordar disso é que publico os autores brasileiros exatamente como escrevem.” Em primeira mão, anunciou que o tema da primeira edição da Granta Portugal-Brasil que se prepara para lançar será “Fronteiras”, pensando justamente questões geográficas, literárias, idiomáticas.

Com a mediação da crítica literária Rita Palmeira e perguntas do público, a conversa se estendeu, tocando em temas como picuinhas e trocas de favores no meio literário, fazendo aparecer semelhanças e diferenças saudáveis entre cada editor e publicação.