No calor da hora

Debate sobre livros mais (ou menos) “palatáveis” ao mercado pautou terceira mesa do seminário Livros em Revista

Loiro Cunha

Paulo Roberto Pires, Francesca Angiolillo e Damián Tabarovsky

“Perón tem uma frase que dizia que 'Melhor que prometer é cumprir'. Procuro fazer o contrário: melhor que cumprir é prometer.” Sagaz no humor e nas colocações, o crítico, editor e escritor argentino Damián Tabarovsky reuniu-se ao também crítico, editor e escritor brasileiro Paulo Roberto Pires na mesa No Calor da Hora, durante o seminário Livros em Revista, que aconteceu em 29 e 30 de novembro, no Sesc Bom Retiro. O seminário teve curadoria da revista Quatro Cinco Um e do Sesc-SP.

Mediadas pela editora adjunta de Cultura da Folha de S.Paulo, Francesca Angiolillo, as mais de duas horas de conversa abordaram questões de crítica literária, como a pressão para escrever em prazos curtos sobre lançamentos, os diferentes fôlegos da resenha e do ensaio, a vida literária e as tendências e os impasses da ficção contemporânea.

Ambos críticos formados em redações de jornal, a certa altura tanto Pires como Taborovsky se converteram em editores de livros que revelaram ao público jovens autores como João Paulo Cuenca (no caso do carioca) e Selva Almada (no caso do portenho). Essa conversão trouxe a ambos implicações críticas e comerciais. “Você tem que dar a notícia para o seu patrão de que determinados títulos não vão vender”, explicou Pires, com ironia. “A experiência de ter uma editora própria reduz um pouco esse estresse.” Pires, que é editor da revista de ensaios Serrote, acaba de lançar a biografia A marca do Z: a vida e os tempos do editor Jorge Zahar, pela editora que até hoje leva o nome do biografado.

Autor de Literatura de esquerda (Relicário), recém-lançado no Brasil, e editor editorial da casa portenha Mardulce, Tabarovsky saiu em defesa da sintaxe arrojada, atentando ao fato de autores politicamente de esquerda muitas vezes escrevem literatura conservadora, padronizada, sem riscos. “Penso a literatura como um contragolpe na época. Não tanto por que se escreve, mas contra o que ou quem se escreve.” O ensaio de Tabarovsky causou celeuma em todos os países em que foi publicado, como Argentina, México e Espanha, por problematizar a cena literária e as diferentes posições ocupadas pelos autores contemporâneos. Ele esclareceu, entretanto, que sua obra ficcional (é autor de mais de cinco romances, traduzidos em diversos idiomas) não é uma aplicação prática do que teoriza no ensaio. 

Os dois críticos puseram em questão os critérios de pauta dos suplementos culturais e o desaparecimento gradual das resenhas negativas. “As resenhas hoje parecem cumprir uma última etapa de promoção do livro, o que nos levanta questões sobre estas relações”, cutucou o crítico argentino. Para ele, as publicações de jornalismo de livros devem assumir sua política editorial, explicitando que são "a favor" ou "contra" esta ou aquela estética, sem espaço para falsas neutralidades. 

Paulo Roberto, por sua vez, enxerga certa crítica de jornal, no Brasil, aprisionada entre o compadrio e a virulência, ou, em suas palavras, “a gentileza incrível e a barbárie, de jogar a cadeira na frente do bar”, ressaltando a importância do polemismo sem sensacionalismo. 

O lugar da literatura latino-americana também esteve no foco da conversa — ambos relativizaram o "boom" internacional dos anos 1970, em torno de autores como Mario Vargas Llosa e Gabriel García Márquez (Pires apontou que a artífice do fenômeno, a agente literária Carmen Ballcells, conseguiu incluir "até a Isabel Allende" no boom). A recente projeção de autores latinos também foi posta em questão: para os dois, há muita mistificação em torno da ambição de ser traduzido e de fenômenos literários impulsionados por eventos internacionais como as homenagens que Brasil (2013) e Argentina (2010) receberam na Feira de Frankfurt.