Aos argumentos, cidadãos

Francisco Bosco responde a crítica “Crepúsculo do esquerdomacho”, de Manoela Miklos, sobre seu livro “A vítima tem sempre razão?”

Bel Pedrosa

Francisco Bosco, autor do livro “A vítima tem sempre razão?”

Confesso que, ao ler a resenha de Manoela Miklos sobre meu livro, fiquei envergonhado. Onde estava eu, afinal, que não conhecia essa mente tão iluminada que acredita transmitir argumentos por telepatia? Tratando do capítulo 2 de A vítima tem sempre razão?, onde discuto a crítica à centralidade que a categoria de reconhecimento assumiu no campo político das últimas décadas, Miklos afirma: “O autor escorrega ao conceder que a centralidade que as lutas identitárias assumiram nas últimas décadas seria fonte de problemas”. Como ela não explica o porquê do escorregão, seria preciso confiar na sua sabedoria divina.

Em que ela parece mesmo acreditar, pois, em seguida, diz: “Bosco declara que o que seguirá será uma sequência de exemplos e algumas definições teóricas frágeis a respeito daquilo que ele ‘considera inaceitável’”. A fragilidade das definições vai, de novo, para a conta da autoridade honoris causa que ela mesma se conferiu. Registre-se ainda que a frase, além de mal pensada, está mal escrita, pois dá a entender que eu declaro estar prestes a apresentar definições teóricas frágeis. Bem, se as considerasse assim, procuraria melhorá-las antes de lançar um livro.

A autora simplesmente não debate as premissas fundamentais que questiono (como “a vítima tem sempre razão” ou “todo homem é um potencial estuprador”). Eu as abordo com argumentos abstratos e exemplos concretos. Ela se contenta em atribuir a mim um “desconforto” – e mais não diz sobre elas. A recusa à contra-argumentação é sintomática: questionar premissas do feminismo deixa ela desconfortável. Ora, só discursos dogmáticos não aceitam que suas premissas sejam questionadas.

Sobre o tema, decisivo, do patriarcado, o leitor, a julgar pela resenha, não faz ideia de como o trato. A questão de fundo é a perspectiva das radfems estadunidenses, para as quais a opressão patriarcal é tão intensa, que uma mulher não tem condições de autonomia para declarar seu consentimento em relações heterossexuais. As consequências práticas dessa visão têm sido, entre outras, a interpretação, pelas mulheres que a assimilaram, de episódios sexuais a princípio consentidos como tendo sido na verdade estupros. Essa perspectiva deu origem, desse modo, à bizarra noção de estupro culposo. Daí minha pergunta: até que ponto as sociedades democráticas contemporâneas são patriarcais? É claro que o são em alguma medida, e que essa medida deve ser combatida. Esse é o próprio fundamento do meu livro. Mas considero equivocada a perspectiva das radfems.

Em vez de ir al grano do problema, a resenhista se sai com uma estatística (de fonte não citada) segundo a qual “a maioria dessas relações [heterossexuais] é abusiva”. Aqui o recurso à matemática opera como álibi para uma dimensão que nada tem de exata: é preciso primeiro definir o que é abuso, para em seguida quantificar o fenômeno. Do contrário, incorre-se numa petição de princípio. Se a definição de abuso for a das radfems citadas no livro, para as quais não se deve estabelecer uma linha clara de separação entre estupro e relações heterossexuais consentidas, então essa estatística é problemática. Trata-se, como observa Elizabeth Badinter, de uma situação mais política que científica.

No primeiro capítulo do livro, faço uma história das autoimagens culturais do Brasil e identifico uma “passagem da cultura à política” como instância dominante dessa autoimagem. Um marco dessa transformação é a escola de sociologia da USP, que, desde os anos 1950, identificou as premissas ideológicas dos discursos dos grandes intérpretes do país, revelando o quanto conceitos pretensamente universais, como o de “homem cordial”, encobriam conflitos concretos de classe. A USP dos anos 50 foi um passo importante na transformação da interpretação do país. E isso se deveu, em parte, a que seus professores não pertenciam à classe senhorial que antes dela monopolizava esse trabalho. Mas, para Miklos, sou “condescendente” com a universidade, que “não era, à época, um lugar acessível a qualquer brasileiro” (registre-se a obviedade da observação). No lugar do quatrocentão Paulo Prado, a universidade apresentou as ideias de Florestan Fernandes, filho de empregada doméstica. Não é pouca coisa, mas, para Miklos, valorizá-lo é ser “condescendente”.

Ainda sobre esse capítulo, uma observação lateral, mas também sintomática. A resenhista atribui a Chico Buarque um “desconforto”, no sentido de “reação de elite”, diante da emergência dos Racionais MC’s, aos quais atribuo um papel importante na história da autoimagem do país. Isso não é verdade. Chico Buarque apenas constatou uma novidade histórica (no que estava certo). De novo, o desconforto parece ser antes uma projeção, no sentido psicanalítico da palavra. Miklos faz lembrar a frase de Badinter: “Todo militantismo se choca com uma dificuldade: levar em conta a complexidade da realidade”.

Por fim, a resenhista conclui que não se deve questionar quaisquer métodos (ela chama de “protestos contundentes”) do feminismo. Que a atitude diante deles deve ser de “silenciar em respeito ao seu transe, ao seu êxtase”. A História já conheceu diversos episódios em que grupos, imbuídos de certezas inabaláveis, cometeram injustiças e violências contra indivíduos, em nome de suas causas justas. Encorajar isso não é motivo de orgulho.

Mas, claro, essa é a perspectiva de um esquerdomacho crepuscular, como sugere o título da resenha. Note-se: “esquerdomacho” tanto pode ser o homem que, igualitarista em matéria sócio-econômica, não o é em matéria de gêneros (interpretação que, quanto a mim, qualquer leitura honesta do livro não autoriza). Como pode ser o homem que, fundamentalmente alinhado com a luta por igualdade em todas as dimensões da vida social, entretanto se recusa a acatar de forma incondicional as premissas e métodos dessa luta. O termo esquerdomacho, nesse sentido, é rigorosamente a imagem invertida do termo feminazi. Foi contra essa polarização falaciosa que escrevi meu livro.