A poeta do póstumo

Maria Gabriela Llansol, a autora portuguesa que criou uma obra monumental à sombra da ditadura de Salazar

A escritora portuguesa Maria Gabriela Llansol, autora da trilogia Geografia de rebeldes

Todos neste livro estão mortos. Não porque tenham vivido no passado, ainda que de fato tenham: Friedrich Nietzsche morreu há muito tempo; são João da Cruz idem, bem como o protestante radical Tomás Müntzer, decapitado no século 16.

Na biografia ou na história — para não dizer em nosso entendimento comum —, a morte circunscreve a vida. Mas, na trilogia Geografia de rebeldes (publicada no Brasil pela 7Letras em 2014), a morte quase não chega a alterá-la. Müntzer carrega por aí a sua cabeça decepada, enquanto participa plenamente de tudo o que se possa chamar de “ação” no desenrolar do livro; e João da Cruz relembra sua própria morte como o ato de flutuar, semelhante à levitação corpórea que dominou com exercícios espirituais.

Os nomes dos personagens estão tão pouco atados a seus corpos quanto as partes destes corpos estão atadas entre si. Neste mundo onírico, o tempo perde seus grilhões, permitindo que pessoas que viveram separadas por séculos conversem como vizinhos que topam um com o outro na rua. Aqui, cabeças separam-se de pescoços; mãos, de braços; frases rompem-se em fragmentos, fraturando as construções esmeradamente “lógicas” que, ao menos na literatura, esperamos que liguem um pensamento a outro.

Teatro dos mortos
Nesse teatro dos ligeiramente mortos, a figura mais morta de todas é a da sua criadora, Maria Gabriela Llansol. E não pelo fato de estar, de fato, morta. (Morreu em Portugal em 2008, aos 76 anos.) Desnecessário dizer que ela não estava morta quando escreveu esses livros.

Eles foram redigidos ao longo de cinco anos, entre 1974 e 1979. Na época, ela morava numa cidadezinha belga chamada Jodoigne. Deixara sua terra natal em 1965, no início do último e agonizante decênio da ditadura de Salazar. O regime, fundado em 1926, antecedeu o nascimento dela, em 1931, e acabou se revelando um dos mais tenazes do século 20: só sucumbiu em 1974, ano em que Llansol deu início a Geografia de rebeldes.

Talvez o ano não seja uma coincidência. Ela estava com 43 anos, mas, para uma escritora que se tornaria notavelmente prolífica, não publicara quase nada até então: houve um livro de contos em 1962, Os pregos na erva, e sua continuação, que apareceu em 1973. Sob o regime sufocante, seu silêncio era típico. A pobreza e a opressão tinham empurrado dezenas de milhares de portugueses para o exílio. Havia as aldeias cheias de gente comum empobrecida, que se tornavam zeladores em Paris ou padeiros no Rio. Dissidentes políticos se exilavam porque precisavam; artistas e intelectuais partiam para lugares onde podiam trabalhar em liberdade.

Sob Salazar, a cultura de Portugal tinha se reduzido a futebol, fado e Fátima. Nesse ar pesado, Llansol não tinha condições de desenvolver uma carreira

Maria Gabriela Llansol foi um desses exilados. Seu marido, Augusto Joaquim, recusara-se a participar das cruéis guerras coloniais que Portugal travava na África e desertara. Foram para a Bélgica. “Vim com muito temor”, escreveu ela, “e, também, com uma enorme sede de liberdade, de novo, de atingir o âmago do ser. Ninguém conseguirá ter uma pálida imagem da densidade do ar que, lá em baixo, se respirava, no exíguo cubículo fechado das nossas vidas. Eu procurava evadir-me a escrever”.

A Bélgica deu-lhe liberdade. Ali, ela descobriu uma instituição característica dos Países Baixos, as beguinarias, hospedarias medievais que propiciavam refúgio a leigos com inclinação religiosa. Essas celas não ofereciam cativeiro e sim liberdade; e na beguinaria do século 13 de Bruges, Llansol compreendeu de repente que “vários níveis de realidade ali aprofundavam sua raiz, coexistindo sem nenhuma intervenção do tempo”. A propósito, essa é uma boa descrição de Geografia de rebeldes: de sua estrutura, que abole o tempo para fundir a vida e a morte; e de seu elenco de seres em busca mística, que habitam as obscuras fronteiras entre níveis aparentemente incompatíveis de realidade.

Ao lado desse mundo espiritual atemporal, o livro reflete a situação política concreta de Llansol e de Portugal. Sob Salazar, a cultura ancestral de Portugal tinha sido reduzida aos “três fs”, futebol, fado e Fátima: esporte, música popular tradicional e catolicismo repressivo. No ar pesado de um país assim, uma artista excêntrica como Llansol não tinha condições de desenvolver uma carreira.

No entanto, isso foi uma espécie de bênção. Joseph Brodsky observou certa vez que a censura é ruim para os artistas, mas boa para a arte. Isso é questionável, além de um tanto romântico. Mas ler Geografia de rebeldes é especular se uma obra como esta, com as partes corporais decepadas e frases cortadas abruptamente, poderia ter sido escrita, ou escrita dessa forma, num país onde pudesse talvez ter a possibilidade de ser publicada.

Podemos facilmente imaginar o desespero que uma escritora sentiria ao encontrar-se exilada e impublicável na meia-idade. A história literária fornece exemplos abundantes de gente que, em situação semelhante, desistiu da arte e da vida. Só uma mulher de força incomum poderia ter transformado em virtudes essas carências, e nos espantamos a todo momento com a coragem que Llansol precisou ter para escrever assim. Para escrever assim, ela teve que desistir da literatura como carreira; teve que aceitar que uma vida de trabalho pode estar destinada ao lixo — e apesar disso seguir em frente.

É por isso que, de certo modo, sentimos que Llansol está morta: ela aceitou o fato de que grande parte da sua obra só seria lida após a sua morte, ou simplesmente não seria lida. Talvez seja essa escolha, que ela fez enquanto ainda era dia, que as figuras em seus livros estão constantemente considerando. “A volver-se poeira, Tomás Müntzer ouvia o tropel dos cavalos cada vez mais distante. Nunca morrera antes. Tinha a consciência de que Pégaso se afastava.”

Transpor o limiar da morte permanecendo ao mesmo tempo plenamente vivo: o tema aparece em quase todas as páginas. A morte em vida é uma escolha que só um santo poderia fazer. O abraço consciente do oblívio é, afinal, uma escolha espiritual, não artística. E, da perspectiva espiritual, esse abraço não é uma restrição, mas — a exemplo da cela monástica livremente escolhida — uma abertura, uma liberdade. Em que noite tão escura, e a que custo pessoal, Llansol aceitou essa liberdade?

Na época em que ela começou a escrever Geografia de rebeldes, Portugal dava os primeiros passos para voltar a se juntar às nações democráticas. Muitos dos livros de Llansol seriam publicados, mas até hoje seu arquivo em Sintra está abarrotado de milhares de páginas de escritos inéditos. Uma leitura mais difundida sempre lhe escapou até depois da sua morte, e não é difícil entender por quê. Ela não era jovem quando começou a escrever a sério. Era ainda menos jovem quando, em 1985, finalmente retornou a sua terra. O pacto com o póstumo já havia sido firmado.

Ao longo da sua vida, Llansol traduziu poetas franceses, alemães e ingleses, incluindo Hölderlin, Rimbaud, Éluard e Rilke. Não chega a ser uma surpresa encontrar na lista também a padroeira dos poetas póstumos, Emily Dickinson. Assim como Llansol, Dickinson parece ter escrito apenas para si mesma — e talvez, mas não necessariamente, para algum futuro leitor, ainda não nascido. Isso lhes deu a liberdade de lacerar a língua que herdaram: Dickinson com seus travessões, Llansol com as estranhas pausas que rompem padrões esperados e criam um ritmo espectral e viciante. Mas, ao contrário dos poemas de Dickinson, que frequentemente demandam um exame cuidadoso para revelar seus significados, os escritos de Llansol são musicais; seu sabor se faz sentir melhor quando lidos em voz alta.

Clarice
O espírito de outra escritora paira de modo ainda mais premente sobre estes escritos. É o fantasma de Clarice Lispector, que estava viva quando Llansol começou a escrever, mas que, em 1977, quando Llansol ainda trabalhava em Geografia de rebeldes, já ocupara seu lugar entre os mortos lendários. O poder enfeitiçante de Clarice sobre os leitores é diferente do de qualquer outro escritor moderno, e seus devotos parecem mais adoradores de uma santa do que admiradores de uma artista famosa. Esse poder já foi descrito muitas vezes, inclusive pelo presente escritor.

Mas, se o poder de Clarice sobre os leitores é bem conhecido, seu poder sobre os escritores nunca chegou a ser descrito. Com sua beleza incomparável e sua estranha força emocional, sua linguagem fornece um exemplo quase irresistível a qualquer um que escreva em português, e sobretudo a jovens escritores. Uma pena: imitá-la quase sempre leva à catástrofe. Ao afirmar que alguém domina a sua literatura tanto como Clarice Lispector domina o português moderno, um crítico se arrisca a diminuir a pessoa com a qual a compara, mesmo quando a intenção é louvá-la. 

No entanto, se alguém pode ser comparado a Clarice com proveito, talvez seja Maria Gabriela Llansol. Isso se deve ao impulso fundamentalmente místico que anima a ambas, sua concepção da escrita como um ato sagrado, uma oração: a ideia, compartilhada pelas duas, de que é por meio da escrita que uma pessoa pode atingir “o âmago do ser”. Esse âmago se torna uma equivalência da vida — de todas as vidas, de qualquer vida — com Deus. Quando Llansol diz que sua escrita é uma “forma de comunicação fulgurante e generalizada entre todos intervenientes ou figuras, sem nenhum privilégio dos humanos”, aproxima-se do panteísmo espinosiano que tem sua ilustração mais fulminante em A paixão segundo G.H., de Clarice Lispector, de 1964.

Geografia de rebeldes está mais próximo do monólogo interior de Água viva, publicado uma década depois de G.H., no ano em que Llansol deu início a seu livro. As autoras compartilham metáforas diletas (o deserto, o corpo, o escritor) e um desejo de transcender as estruturas do romance tradicional. Essa abolição, à qual aspiravam também os autores do Nouveau Roman, é uma consequência da libertação do tempo linear — embora os franceses carecessem do impulso místico presente em Clarice e Llansol, e embora Clarice nunca vá tão longe a ponto de abolir a linha entre a vida e a morte. A morte sempre seguiria sendo o grande mistério.

Quanto mais tempo a gente habita o mundo de Llansol, mais vê que talvez ele signifique escrever contra o romance

Os escritos de Llansol também ilustram os perigos de abolir a estrutura do romance tradicional. No romance, o leitor — e ela sempre teve pelo menos alguns leitores, especialmente depois de seu retorno a Portugal — precisa saber de algum modo onde está, quem está falando, compreender por que aquela história está sendo contada, se é que há alguma: isto é, se aquilo chega a ser um romance. 

Mas, quanto mais tempo a gente habita o mundo de Llansol, mais vê que talvez ele signifique escrever contra o romance, criar uma prosa que possa aspirar ao status de um ser vivo. “O novo ser não era também um livro. Ana de Peñalosa não amava os livros: amava a fonte de energia visível que eles constituem quando descobria imagens e imagens na sucessão das descrições e dos conceitos.”

Portanto, não é em busca de enredo ou personagem que lemos Maria Gabriela Llansol. É pela fonte de energia que seus livros contêm. Abra-os em qualquer página, como um volume de poesia; e escute essas pessoas mortas falarem.

[Tradução de José Geraldo Couto]